Ordem da Confraria Elementar Primeira do Brasil

UMBANDA O QUE É

A Umbanda é uma  das formas de espiritismo mais autênticas e vulneráveis às influências humanas, sociais, culturais e depois veremos religiosas. É  a  Umbanda  uma  modalidade  de  espiritismo  surgida  espontaneamente  no  Brasil  entre  1908 e 1922, no Rio de Janeiro, e em  todo o território nacional, dentro do  mesmo espaço-tempo. As  manifestações  ocorreram  em  pessoas  que  não  se  conheciam e em  locais  distintos  do  território  nacional, dentro  de  centros espíritas kardecistas, espontaneamente, como assistimos, nas casas, em reuniões familiares quando uma oração foi feita e até quando estavam numa alegria receptiva.

As  entidades deram origem  aos  cultos  e  os  locais  foram  denominados  de  terreiros ou tendas. Peças, galpões, casas desocupadas, chão batido, e depois surgem as sociedades religiosas de Umbanda. Diferentes de tudo o que havia antes e  foram muito frequentadas. Organizadas  em  torno  de  um chefe,  um   dirigente,   muitas   vezes   denominado  de  “cacique”  pelas   próprias  entidades  que   se manifestavam;   essas   entidades,   em   sua   maioria   nos   primeiros  momentos  eram  percebidas  com  a  forma   astral  de  índios, autodenominando-se  caboclos. Os  médiuns  que manifestavam  as entidades  eram  de locais, natureza e condição tão diferentes  que nunca  foi  possível  estabelecer  um critério  que  determinasse  quem  seriam  os médiuns. Em seu começo não possuía nenhuma base racial,  histórica  ou  doutrinária.  Alguns  tiveram  a  iniciativa d e registrar os acontecimentos, por insólitos e pela intensidade e temos hoje,  material  que  nos permite uma  visão  mais  completa   dos  acontecimentos em São Paulo e Rio de Janeiro, mas a documentação e registros da Umbanda em outros locais do país é deficiente.

No sul são  muitos  os  centros  espíritas  e  os  terreiros  na  primeira  metade  do  século,  mas  desapareceram  ou  se transformaram no  decorrer  do  século,  principalmente  depois  dos  anos  sessenta. Foram  duas  transformações, em  direção  da  Quimbanda  ou  do candomblé, nos dois casos, o africanismo se fundiu com a Umbanda  por  uma  causa  simples, muitas  das  entidades  tinham  a mesma denominação   e  de  certo  modo  poderiam  ser  entendidas  como  as  mesmas manifestações. Na Umbanda as  práticas  e atribuições pessoais  dentro   do  terreiro  eram  e  são  determinadas  pela opinião dos espíritos, mas as sessões são simples  e a  condição pessoal é  o fator  determinante.  Isso   criou   uma  exigência  que  não  correspondia  a  necessidade  social  das  massas  de  identificarem-se dentro de uma religião,   a  Umbanda  leva  à  definição  e  atitudes pessoais,  o  candomblé  e  a  Quimbanda,  colocam  o  homem como protegido. Podem  retomar  as  posições  religiosas  com  as  quais  foram  criados, é   um  retorno  às  religiões  de  adoração  e  não de construção   interna   e   a  Umbanda   é  toda   interna.   Pode-se   observar  isso   na   grande  liberdade   de   manifestação   dada  aos médiuns,    que    incorporam   as   entidades   conforme   suas  naturezas  e  executam  diversos  tipos  de  mediunidade.  Quando  não adequadamente  treinados e   orientados  podem  ficar  inseguros  de  si mesmos,  temem  errar, o  processo espírita sempre foi muito combatido, as famílias em geral  tem   dificuldades   de   conviver   com  um  médium   e  quando  alguém  diz  que  está  desenvolvendo sua  mediunidade em geral é  segregado, criam-se  distâncias e desconfianças. Ao  aderirem  à  Quimbanda  ou ao candomblé, sentem-se   mais   protegidos,  há  uma  história  com  a  qual  logo  se  identificam,  adotam   linguagens,  posturas  e  terminam  por  fazer  da diferença  uma  identificação,  a necessidade  de  pertencer  a  alguma coisa predomina, preenche  o  vazio  deixado  pelas  instituições, mas   ainda   sentem   falta  delas,  preenchem  o  vazio deixado  pela  ausência  de  Deus,  ainda   precisam   dele  e os deuses africanos servem, são chamados de “meu pai e minha mãe”, preenchem um vazio.

Ainda se encontram centros  espíritas  de Umbanda em muitas das grandes cidades brasileiras, principalmente do centro-sul, mas hoje em dia encontra-se em franca  decadência, com  o  morte  dos  antigos  fundadores e a dificuldade da renovação do quadro dirigente. Esse  despreparo  dos  dirigentes  se  deve  a  falta  de  uma  doutrina  e  de  um sistema claro, o que não ocorre no africanismo, que se expande nas últimas décadas. O africanismo termina por se misturar aos rituais de Umbanda, alterando as disposições originais.

Possui  hoje  em  dia  uma  produção  literária, mas o termo  Umbanda é utilizado, pelo menos no sul do país, em centros de Quimbanda e outros originados no candomblé, de  modo  difuso e os autores  se referem à Umbanda de modo muito amplo e sem limites definidos. Os maiores nomes dessa literatura emergente são  Luiz Matta  e Silva  no  Brasil  e Roger Feraudy, mas hoje  em  dia há uma dezena de autores de qualidade,  cuja  tendência  é  a  de  adotar  uma  posição  mais universalista e nos últimos tempos  se aproxima dos autores ocultistas, procurando conhecer mais sobre os seres e os mecanismos de manifestação.

Na Umbanda o  atendimento  público  ocorre  em  sessões,  através de médiuns incorporados e constituindo-se de passes, orientações, consultas às entidades e trabalhos de cura e de limpeza  energética. Quase  todos os tipos de  médiuns são aceitos e a única dificuldade pode ser estabelecida  pelo dirigente,  em  geral  desconfiados  da  possibilidade  de simulação do médium e nunca dos espíritos que são sempre aceitos.

Dentro  dos  rituais  assistimos  seres angélicos se manifestando através de médiuns, os elementais, os exús, os elementares, das mais simples  manifestações  às  mais  elevadas. Orixás  maiores  e  menores,  devas  elementais,  entidades  humanas  e não humanas. Num mesmo universo, numa mesma sessão, numa mesma corrente.

Observamos que os “espíritos”  que  se  manifestam na Umbanda tanto podem ser humanos quanto seres da natureza e que todos tem poder  de mover  energias  e  atuar  nos níveis  etéricos  e  emocionais  dos pacientes.  Os   mesmos  seres  podem   ser  percebidos  de diversas  formas  e  estas formas  se constroem em conseqüência da presença dos médiuns, ou de alguma condição criada por aspectos ritualísticos.  Afirmamos  que  não  são escravos se manifestando, ou índios, ou crianças mas  seres que  adotam  esta forma  ou criam como uma  projeção,  isto  se  explica porque ao observarmos as manifestações elas possuem mais de uma  forma  simultânea, há  uma consciência   e   um   conhecimento.   Acreditamos  que  há   preconceitos  raciais  ou  culturais  e  em  parte  se  deve  a  que  os  seres representam-se  como  pertencentes  a  povos  do  passado,  mas  quando  interrogados,  quando solicitamos que nos esclareçam sobre assuntos  pertinentes  às  suas  dimensões,  respondem  além  dos  conhecimentos dos próprios médiuns e nos falam das raças, povos e realidades  que  não  poderiam  existir no fantasma de um índio ou  de  um  negro escravo, ou  de um oriental.  Assim as manifestações dos espíritos vai além das formas e de sensações energéticas e são fenômenos de consciências se manifestando..

Acreditamos   que  os espíritas  franceses  absorveram  dos  católicos  uma  concepção  que  terminou  sendo  repassada  aos   espíritas brasileiros,  de  que  tudo  o que  existe  na  natureza foi criado  por  Deus para servir ao  homem, isso  fez com que criassem a ideia de que  os  espíritos  eram  protetores  dos  homens, concepção  que  encontramos  em  quase  dotas  as religiões antigas e espiritistas ou espíritas. Eles  possuem  ligações  é  verdade,  mas  possuem  evolução  e  involução,  que  se  comprometem  no  envolvimento  com os vivos.  Em  conseqüência   de  toda  a  desinformação,  no  Brasil,  o   espiritismo   adotou   a  forma  de  assistencialismo  e milhares de pessoas procuram os centros espíritas diariamente para auxílio nas dificuldades que estão enfrentando.

Sua  importância  somente  tardiamente  será  reconhecida  e é a  mais  avançada  das  modalidades  de espiritismo mas não possui uma organização  comum  e  os  grupos, por falta de um fator unificador e limites dos dirigentes, estão contidos  e sendo progressivamente envolvidos  pelo  africanismo.  A  Umbanda  depende  dos  dirigentes  e, se  no  africanismo os  dirigentes  preparam  os  sucessores, na Umbanda  o  personalismo  e  a  dependência  das  organizações  ao  “chefe”, é o principal fator de enfraquecimento e de continuidade. Podem  executar  todos  os  tipos  de  espiritismo de atendimento, e permitem as manifestações dos seres de todas as correntes acima mencionadas.  Os  limites,  quando  existem  são  apenas  dos  dirigentes,  possui literatura de qualidade, embora o número pequeno de autores.

Uma  questão  que  confundiu  muitos  praticantes  de  espiritismo  é  de  que  a  manifestação de entidades nos trabalhos de mesa não caracteriza e não contamina o centro  kardecista onde  inicialmente essas entidades se manifestaram, poderiam e devem se manifestar nos dias de hoje. Todos  os  espíritos  tem  de  ser  aceitos em todos os sistemas. O  que  caracteriza  a  Umbanda é a existência de um ritual, com abertura e encerramento, invocações e procedimentos na formação dos médiuns, não  a  manifestação  dos seres, essa é da própria  natureza e condição humana. Não há toque de tambor na Umbanda original e não deveria existir na concepção   moderna,  pois os  ritmos  e   mantrans   variam   de  entidade   para entidade,  e   é   na   Umbanda   que  elas  podem  se  manifestar  de  modo   mais simples  e   natural,  é   também  na  Umbanda   que   percebemos   os  orixás  brasileiros   se   manifestando   e   os  orixás   de  outras regiões  do  mundo.  

Aos leitores remetemos  às  obras  de  Luiz Matta  e  Silva, Roger  Feraudy,  Cavalcanti  Bandeira  e também William Carmo de Oliveira, que   permitirá   uma   elucidação   sobre  as  diversas   correntes,   sendo   seus  trabalhos   complementares.  É   muito  semelhante   a resultados  que  chegamos  em  nossas  visitas  aos  diversos  terreiros, tendas e centros espíritas.